quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Primeiro Mestre





O Primeiro Mestre

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

Sinopse de Fatos Transcorridos: Nascido num vale entre imensas montanhas escarpadas cobertas de neves eternas, cuja região nunca deixara, para continuar morando junto de um homem mau, que usurpara sua cabana, seus pertences, e ainda o castigava, assim era o inocente Miang, filho de mãe desconhecida e espólio único de pai, tendo por relevância na vida, apenas ocorrido enquanto pastoreava suas cabras em direção ao riacho local, encontrado em seu caminho seres nativos gigantescos, os quais se tornaram seus únicos amigos.  Deles ouviu relatos sobre a existência do Maior entre todos, como Criador do Universo. Pela ajuda também deles, partira em busca de maior sabedoria sobre o Altíssimo...  

E ele – o Sol – veio. Dessa forma Miang ainda não o havia visto, em sua majestade e beleza. Tudo parecia cor-de-rosa, dourado, até os picos ameaçadores de montanha perderam todo o seu horror. Por longo tempo permaneceu o menino contemplando, e muitos pensamentos acordaram no seu íntimo.
Nesse ínterim, Fu-Fu havia procurado por ervas escassas e matado sua fome. De maneira provocadora colocou-se ao lado de seu pequeno senhor, para que este fizesse o mesmo e bebesse. Então, foi assim que Miang escutou nitidamente uma voz, dizendo:

“Está na hora de iniciares o caminho. Vá ao encontro da Luz, Miang.” Ao voltar-se não percebeu ninguém que pudesse ter falado com ele. Mas as palavras ele as tinha escutado claramente, isso era suficiente. 

Dirigiu seus passos sobre neve, gelo e pedregulho em direção ao sol. Ele encontrou um raio de sol, que se estendeu dourado trêmulo sobre o deserto como uma fita estreita, e ele resolveu segui-lo enquanto o poderia avistar. 
Tinha que estar cuidadosamente atento aos seus passos. 
Não estava acostumado a caminhar nessa altitude. 
Várias vezes Fu-Fu, que o rodeava celeremente, o empurrava para longe de algum profundo precipício, no qual seguramente teria caído. 
Mais de uma vez escorregou, mas levantou-se rapidamente.
 Não deu importância à dor, todos os seus pensamentos caminhavam em direção ao alvo: encontrar o Altíssimo.

Perto do local, no qual ele agora – encostado à cabra – descansou, encontrava-se um homem de joelhos. Seu cabelo era de um branco prateado, sua figura curvada. Segurava as mãos trêmulas apertadas contra o rosto e em voz alta fluíam as palavras de sua prece:

“Ó Tu, Todo Poderoso! Deixa-me ainda vivenciar poder servir-Te conforme Tu o prometeste. Teu servo ficou velho, e fraco o seu invólucro terreno. Os dias passam, sem que o menino abençoado apareça. Não permita que me chamem desta Terra, antes que eu tenha Te servido verdadeiramente!”

Levantou a cabeça espreitando: Passos aproximaram-se sobre o pedregulho.

Ó Altíssimo, é esta a resposta ao meu pedido?”

Levantou-se o mais rápido que podia e saiu para fora. Os raios do sol brilhavam claramente, quase claros demais para os seus velhos olhos, acostumados à escuridão.
No meio desse esplendor caminhava um menino, acompanhado por uma cabra. O sinal prometido! “Ele virá para ti no brilhar do sol, seu alimento, porém, ele trará consigo, para que não sofram necessidades. Uma cabra célere será, de agora em diante, a tua companheira.”

Sem percebê-lo, por quase não se destacar de sua morada encaixada nas rochas, caminhava o menino confiantemente, olhando cuidadosamente para o chão. Levantou uma vez o olhar para o céu, e todo o brilho do sol espalhava-se sobre o seu rosto.
De repente, a cabra parou e impediu seu companheiro de seguir viagem. Agora, enfim, ele olhou ao seu redor e percebeu o velho.
Ele irrompeu numa exclamação de alegria. O eremita, entretanto, dominou-se. Ele não podia dar expressão à sua alegria.

“Quem és tu, forasteiro, que vens a essa solidão a estorvar o sossego de minha velhice?”

“Sou um menino, chamam-me de Miang. Venho de longe para que tu me fales do Altíssimo, mestre. Eu quero servir-te, até que eu encontre o Todo Poderoso e possa ser Seu servo. Peço aceitar a Fu-Fu e a mim com bondade e ensina-me, pois eu sou muito ignorante.”

Agora estava bem diante do velho e inclinou suplicante sua cabeça. Por um breve instante a mão direita do ancião pousou sobre a cabeça do menino. Como este era jovem e pequeno!

“Então entra, Miang. Apertado e escuro está aqui, moro na pobreza, mas posso te falar do Altíssimo.”

“Fu-Fu também pode se esquentar aqui dentro? Estamos com frio.”
Estremecendo disse-o o menino, quando entrou na moradia que parecia uma caverna, da qual emanava calor.

“Ela pode entrar,” concedeu o ancião.

Pouco depois, o mestre e seu hóspede estavam sentados sobre uma cama feita de peles empilhadas, aos seus pés estava deitada a cabra. O ancião buscou um pão duro e um cântaro de água quase vazio. Ofereceu ao menino e preparava-se para comer.

Rapidamente Miang abriu sua sacola e colocou um pedaço de carne seca e um pão mais macio diante do hospedeiro.
“Deixa-me comer o pão duro e pega este, mestre,” pediu ele, enquanto já ia se servindo. “Tens ainda algum outro vasilhame, para que possa dar-te leite de Fu-Fu? Ela quer te agradecer pelo calor.”
Enquanto ainda perguntava, percebeu uma pequena vasilha, rapidamente a buscou e encheu-a com o leite morno cheiroso. Avidamente bebia o ancião. Parecia que, com a bebida não costumeira, uma nova vida corria pelos seus membros.

“Altíssimo, eu Te agradeço!” exclamou radiante. “E também a ti agradeço, menino. Eu estava tão fraco antes que tu vieste. Este leite me reanimou extraordinariamente.”

“Não irá faltar-te, enquanto Fu-Fu viver,” garantiu Miang, acariciando a cabra.

A seguir, ele teve que relatar e grande foi o espanto do ancião, quando ouviu de que maneira o menino tinha chegado até ele.

“Podes realmente enxergar os gigantes e conversar com eles?” perguntou.
Miang afirmou entusiasticamente e acrescentou: “Eles me falaram de ti. De que outra forma poderia ter-te achado?”

“E o que queres fazer, quando tiver-te ensinado tudo o que eu mesmo sei?” O ancião precisava ter a confirmação daquilo que para ele já tinha se tornado certeza.

“Quando tu tiveres me dito tudo o que necessito saber para encontrar o meu caminho para o Altíssimo, então eu irei para junto Dele e servirei a Ele, mestre.”

“Então fique comigo.”

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Adeus aos Gigantes








Adeus aos Gigantes

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

Quando o sol começou a declinar, o menino animou-se. Seu dever o chamava.
“Voltarei amanhã, ó gigantes” prometeu. Então os deixou rapidamente com seu bando travesso. E voltou todos os dias. Aos poucos se formaram dentro dele pensamentos e conceitos firmes.

Os gigantes podiam pouco ajudá-lo nisso, porém, de vez em quando, Muru direcionava com uma palavra o pensamento para um novo caminho.
Existia um Altíssimo. Este criou tudo, tudo o que vivia, mas também todo o mais. Isto estava tão firme na alma do menino, como se sempre o soubesse. Se, no entanto, esse Altíssimo tinha criado tudo, então também tudo a Ele pertencia. Esta foi como segunda verdade, que luminosamente surgiu em Miang. Se tudo é Dele, eu também sou de Sua propriedade. E agora lhe veio o derradeiro, que tinha que reconhecer a seguir: sendo eu Sua propriedade, então tenho que servi-Lo com todas as minhas forças.

“Escuta, Muru,” falou ele certo dia.

“Eu preciso procurar o Altíssimo, para saber como devo serví-Lo. Eu prefiro cuidar de Suas cabras do que das de Wun, que as tirou de meu pai. Mas onde estão as cabras Dele, e onde está Ele?”

“Isto não podemos dizer-te, Miang. Tu deves ir mundo afora para encontrar a resposta.”

Isto era uma novidade que primeiramente tinha que ser examinada a fundo. Mas o pensamento tinha algo atrativo: ir para longe da limitação destas montanhas, para ver o que havia além! Encontrar o Altíssimo e entrar no serviço Dele!

Cada dia aumentava seu ardente desejo íntimo, até que Miang apresentou-se numa manhã aos seus amigos com a decisão firme: “Hoje, quando eu retornar com as cabras, então quero deixar tudo e ir até o Altíssimo. Eu tenho dito isso a Wun. Ele concordou, só que – se eu for – nunca mais poderei voltar. Mas isto eu também não quero.”
“Não será difícil para ti separar-te de tuas cabras?” perguntou Muru insistentemente, mas surpreendeu-se quando o menino respondeu muito sério: “Isto não importa quando se quer procurar o Altíssimo e encontrá-Lo.”

Mais tarde, quando ele, como já se acostumara, procurou seu lugar no joelho de Uru, pediu: “Vocês podem me aconselhar qual o caminho a seguir, para alcançar o meu alvo o mais rápido possível?”

“Nós podemos te ajudar até a próxima parada do teu caminho, Miang. Mais não podemos fazer, mas isso deverá realizar-se.”

“Venha hoje à noite novamente para cá, então Uru te alcançará por sobre os vales até o cume branco lá no outro lado. Com isso te é poupada penosa escalada e um muito difícil caminho.”

“Encontrarás lá, onde serás colocado sobre os pés, uma morada. Nela mora um sábio muito velho, o qual está destinado para ser teu professor. Entretanto, depende unicamente de ti, se ele irá aceitar-te. No caso das dificuldades nas montanhas podemos te ajudar desta vez. Todas as demais tu mesmo tens que vencê-las.”

“Eu poderei fazer isso?” perguntou o menino receoso. A profunda seriedade de seu amigo gigante abafou um pouco o radioso espírito empreendedor.
“Tu poderás fazê-lo, se nunca perderes de vista o teu alvo, de encontrar o Altíssimo. Então terás ajuda nas tuas caminhadas.”

De noite, Miang estava perante seus amigos. Estava vestido como sempre. Nada além da sacola de merenda mais recheada indicava preparativos para a grande caminhada.

“Não tens uma vestimenta melhor, anão?” perguntou Uru amigavelmente. “Morrerás de frio, pois lá em cima é gelado.”
“Não, não tenho nada melhor,” disse o menino com leve aflição. “Eu pedi a Wun para me dar uma pele de meu pai, mas ele escarneceu de mim.”

Por um instante os gigantes se entreolharam, depois Muru acenou afirmativamente.

“Deita-te aqui por um curto espaço de tempo,” ordenou ele, “até chegar a hora de levar-te embora. Durma, Miang, durma.”
Ao pronunciar essas palavras colocou carinhosamente a sua enorme mão sobre o menino, que se aconchegou confiantemente e logo adormeceu.

Em seguida, Uru soltou uma enorme massa de pedras e enviou-a com um deslizamento bem calculado até o vale. Com segurança esta alcançou os ”montículos de toupeira”, os quais até então foram o lar de Miang. Muru, porém, tinha chamado alguém para ajudar. Era um ente minúsculo, sem ter nem a metade do tamanho do menino, que se encontrou à sua frente para receber sua ordem.
Então ele partiu sem demora, e logo voltou. Cuidadosamente trouxera a mais bela das cabras, Fu-Fu, a travessa. Nas costas chegou levando uma trouxa com peles. Agora Muru retirou a mão do rosto do menino e chamou-o.

“Miang, chegou a hora da tua peregrinação. Mas não deverás partir totalmente sem bagagem. Leva a cabra e as peles como lembrança de teus amigos gigantes, mas também como prova de como o Altíssimo cuida de todos que entram no serviço Dele.”

Miang, porém, que com grande alegria tinha cumprimentado Fu-Fu, da qual a despedida lhe tinha parecido muito difícil, deixou a cabra e voltou-se subitamente para o locutor.
“Muru, é verdade que o Altíssimo torna viável o meu caminho até Ele? Quer Ele me aceitar como Seu servo, a mim, Miang, que nada de concreto sei Dele?”

E quando Muru acenou seriamente, brotou do menino impressionado:

 “Ó Altíssimo, a quem eu sinto e pressinto, deixa-me encontrar o caminho até Ti, para que eu Te sirva com todo o meu ser e Te agradeça pela Tua bondade não merecida.”

A despedida foi curta. Uru segurou o menino, ergueu-se e esticou o enorme braço para longe. Onde as pontas de seus dedos tocaram os rochedos, Miang foi amparado pela mão de outro gigante.

Depois disso, encontrou-se entre gelo e neve num deserto de montanhas. Os picos estranhos de rocha olhavam ameaçadoramente para ele, era muito frio.
Tremendo arrepiou-se e quase esqueceu de dirigir o seu agradecimento para o alto. Aí já estava também Fu-Fu ao seu lado, igualmente tremendo de frio. Miang olhou para o céu. O amanhecer não ia tardar.
“Espera só, Fu-Fu, até que apareça a roda de fogo, então aqueceremos e poderemos reconhecer o nosso caminho,” consolou ele a sua companheira e, com isso, também a si próprio. Encostados bem um no outro esperaram ambos o sol.

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Os Gigantes Moram ao Lado








Os Gigantes Moram ao Lado

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

No outro dia, novamente o pastor e seu rebanho subiam céleres por sobre os rochedos. A princípio, o menino queria dirigir seus passos em outra direção, porém alguma voz dentro dele falou: que isso seria covardia. Também, nunca mais encontrara os gigantes. Era bem possível que estes tenham ido embora.
Mas não! Lá estavam deitados e olhavam em sua direção. Repetidas vezes teve que olhar para eles durante a sua escalada. Como essas figuras gigantescas combinavam com o ambiente montanhoso! Dava a impressão que eles faziam parte dessas escarpas e píncaros acidentados. Pareciam selvagens e sinistros, enquanto se contemplava somente seus corpos enormes. Erguendo, porém, os olhos até suas cabeças, então todo o medo desaparecia. O menino não compreendeu por que tinha sentido medo no dia anterior. Hoje lhe pareciam bons e alegres.

Dirigiu-se a eles com saudação sonora, e uma risada trovejante ecoou ao seu encontro.

“Senta aqui perto de nós, anão, “chamou Uru. “Dos teus animais eu vou cuidar bem.”

Mas somente depois que as cabras céleres começaram a pastar, acompanhadas de muitas recomendações e carinhos do menino para que elas ficassem atentas, o pequeno pastor atendeu ao convite. Um pouco receoso subiu na perna, estendida hospitaleiramente, e olhou ao redor. O local elevado ofereceu-lhe uma visão mais ampla, não só sobre as suas protegidas que pastavam espalhadas, mas também por entre as montanhas.

O que ali viu, paralisou sua respiração. Seria possível que ali estivessem deitados mais gigantes ainda? Por todo lado ele parecia encontrá-los.

Como se o gigante até então calado, que seu companheiro chamava de Muru, tivesse compreendido os seus pensamentos, este o perguntou:

“Por que te admiras, menino? Não sabias que nós somos em número maior que os cumes das montanhas?”

“Quando é que vocês chegaram?” retrucou o menino. Uru riu alegremente, Muru, porém, respondeu sério: “Nós nunca viemos. Nós sempre existimos, desde que as montanhas se encontram aqui.”
“Mas eu nunca vos tinha visto antes,” refletiu o pastor. “Como isso pode ser possível?”

“A maior parte tu ainda não percebeste, anão,” exclamou Uru impetuosamente. “Os teus olhos estavam cegos como os dos animaizinhos jovens. Eles se abrem somente aos poucos”

“Então Wun, o velho lá embaixo, também ainda tem olhos cegos. Ele repreendeu-me, quando o perguntei a respeito de vocês e disse que eu tinha inventado um conto. Como se fosse possível inventar figuras desse tipo!” acrescentou o pequeno sorrindo.

“Tu não deves perguntar aos homens quando queres saber de nós.”

“Então eu pergunto a vós, ó grandes.”

“Isto está certo” elogiou Muru sério. “Também, terás resposta. Antes, porém, deves relatar sobre ti. Como é que te chamam, e o que tu vivenciaste?”

Wun me chama de Miang e, antes dele, o meu pai assim me chamava. Nós moramos lá embaixo, desde que eu me lembre. Meu pai, a quem chamavam de o líder, era maior e mais bonito que os outros. Um dia, ele saiu para espantar as grandes aves que roubavam as nossas cabras. Então, os homens voltaram sem ele e disseram que a montanha o tinha retido. Desde então, eu vivo com Wun, que se mudou para a choupana de meu pai, que é maior e mais bonita que a dele. Quando eu não obedeço, ele me bate.”

“Então não gostas de estar com ele?” quis saber Muru.

“Não. Nada mais é bonito desde que meu pai desapareceu.”

“E tua mãe?”

“Eu não sei de nenhuma. Talvez eu não tivesse nenhuma,” pensativamente o disse o menino. “Isso é tudo que posso lhes contar,” concluiu. “Agora devem me contar de vocês.” Muru, porém, começou seu relato com a pergunta:” Quem confeccionou a tua sacola, na qual trazes o teu alimento para cá?”

“Eu próprio,” foi a resposta alegre do menino.

“E quem confeccionou a tua roupa?” E Muru apontou para a peça composta de peles, que cobria as costas e coxas.

“Nisso Wun me ajudou, antigamente meu pai o fazia.”

“E quem te criou?”

“A mim?” espantou-se Miang. “Eu estou aqui, desde que posso me lembrar.”

“Isso não é muito tempo, anão,” arquejou Uru, enquanto Muru indagou: “E onde estavas anteriormente?”

Essa pergunta foi além da compreensão de Miang. Feliz que tinha chegado a hora de levar o rebanho até a fonte, ele se esquivou. Porém, enquanto deixava os animais beberem e os reunia depois para a volta ao local de pastagem, ele raciocinou. Aquilo, que finalmente decifrou, comunicou-o a Muru:

“Eu devo ter vindo, como as pequenas cabras, de uma velha.”

“Bem pensado,” elogiou o gigante. “E a mulher veio de outra, e assim retrocede até a primeira. Esta, porém, foi criada.” Muru disse-o com ênfase.

“Isso deve ter sido feito por um Grande,” refletiu Miang, que havia se encostado na perna do gigante, para poder olhar-lhe no rosto. Com agrado o gigante olhou para o pequeno. Um brilho havia nas feições inquiridoras.

“Sim, menino, aquele que criou a primeira mulher é o Maior em todo o mundo. Tudo, o que podes ver, Ele o fez. Também a nós. Muito antes de haverem seres humanos Ele nos chamou e nos designou como guardas das montanhas. Nós somos como uma parte desse mundo de pedras.”

Ele calou-se. Tinha dificuldade de expressar tudo isso em palavras. No menino, porém, foi despertada uma grande curiosidade, ele queria saber mais.

“O que aconteceria, se vocês vos afastassem para bem longe desta montanha?”

“Então ela iria despedaçar-se e desmoronar aos poucos.”

“Vocês sempre estão deitados aqui? Isso não é enfadonho?”

Uru começou a rir.

“Anão, pensas por acaso que nós servimos com preguiça ao Altíssimo? Não, quando vocês anões dormem, nós trabalhamos.”
“Nós melhoramos e construímos e alteramos por ordem superior,” recomeçou Muru. “Nunca escutaste estrondo nas montanhas, quando as pedras rolam para baixo?” Miang acenou com a cabeça. Como tudo isso era maravilhoso. Ele caiu em profunda reflexão, e também os gigantes não disseram mais nada.

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.




domingo, 4 de setembro de 2016

O Menino e os Gigantes








O Menino e os Gigantes

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf


Cumes de montanhas acidentadas, escarpadas, elevando-se altos contra o céu, pairavam imóveis sobre um vale na região montanhosa, que se estendia indolentemente entre as rochas. Neve eterna cobria os cumes, precipícios e fendas, transformando-se em gelo verde-azulado, invulnerável à claridade ofuscante do sol.

Num dos lados do altiplano estavam deitados, recostados nas paredes rochosas, dois vultos enormes, como se eles próprios fossem parte dessas rochas. Prazerosamente esticavam-se no calor do sol e olhavam ora para o céu azul escuro, ora deixavam deslizar seus olhares sobre o movimento da alegre atividade ao seu redor e, sim, até por cima deles.

Um rebanho de cabras montanhesas pastava em ambos os lados de um alegre riacho borbulhante, pastoreado por um menino magro e alto que, sem cessar, tinha que pular ora para cá, ora para o outro lado, para impedir que animais muito destemidos se embrenhassem nas escarpas.

No seu zelo não deu atenção aos dois gigantes até que tropeçasse e caísse na mão aberta de um deles, estendida no solo aquecido. Este o segurou e o sacudiu levemente.

“Não podes prestar atenção ao teu redor, anão?” exclamou ele com uma risada, que provocou um eco ao redor, como se um trovão retumbasse.

“Me solta,” gritou o pequeno, defendendo-se com todas as forças. “Me solta, senão a Fu-Fu cairá lá adiante sobre as rochas.”

“E isso seria tão grave assim?” quis saber o gigante. Nisso, porém, ele afrouxou seu punho de modo que o pequeno prisioneiro pudesse escapar.

Como um raio o menino chegou ao local perigoso ali adiante. Porém, o gigante foi mais rápido. Erguendo-se um pouco, tinha estendido o comprido braço e segurado a cabra. Agora estava suspensa sobre a cabeça de seu pequeno pastor, e novamente a risada do gigante provocou eco na redondeza.

“Ponha imediatamente a Fu–Fu novamente no chão!” exigiu o menino, que se voltou e veio correndo ofegante. Porém, o que ele poderia empreender contra o gigante risonho?

Aí obteve ajuda inesperada. O segundo gigante despertou de sua sonolência e imediatamente dirigiu-se categoricamente ao seu companheiro.

“Devolva a cabra ao menino, ele não merece que tu o atormentes, Uru.”
Imediatamente este colocou o animal no chão, que correu com altos saltos para junto do seu pequeno dono.


“Fu-Fu, malvada,” repreendeu este, abraçando-a quase carinhosamente. “Que imprudente és sempre!”

E ele apressou-se para, com a cabra resgatada, juntar-se ao rebanho que pastava alegremente.

Aí se lembrou de algo importante. Ele voltou-se, olhou para os dois gigantes que o observavam e exclamou:

“Agradeço-te, ó grande!”

“A quem te referes anão?” perguntou seu alegre atormentador.

“Ambos somos grandes.”

“Grande é aquele, que é justo,” foi a resposta inesperada.

O menino queria retirar-se, quando soou a voz poderosa de seu auxiliador:

“Tu me agradas. Venha para cá com os teus protegidos agitados e vamos conversar. Uru só estava brincando. Ele não pode te fazer mal.”

Prontamente o menino assobiou, reunindo seus animais, bem observando que nas proximidades dos dois homens gigantes a grama e as ervas cresciam abundantemente.

“O que chamas de justo?” perguntou o gigante, assim que o pequeno pastor estava sentado comodamente sobre uma de suas pernas, espreitando ao seu redor.

“Justo é, quando a gente sabe bem no seu íntimo, o que deve fazer para viver em equilíbrio com tudo.”

“Isto eu não entendo,” resmungou Uru, enquanto seu companheiro indagou: “Quem te disse isso?” “Meu pai.”

“Então chame o teu pai, para que ele nos esclareça isso,” exigiu o gigante. “Isso eu não posso. Ele não está mais aqui,” foi a resposta do menino. Foi acompanhada de um suspiro.

“Com quem estás vivendo? A quem pertencem os animais?” quis saber o gigante.

“Agora eles pertencem a Wun, com quem eu também moro. Ele me bate, quando alguma coisa acontece a uma das cabras.”

“Ele é o teu avô?”

“Eu não sei. Mas o sol quer partir, eu tenho que voltar para casa.” Levantou-se rapidamente, assobiando chamou os seus animais e, numa trilha estreita, correu com eles morro abaixo.

Uru levantou-se, seguindo-o com os olhos encosta abaixo.

“Lá embaixo há alguns montículos de toupeira, lá provavelmente seja a morada do anão,” observou ele.

“É uma criança abençoada. Não o vês? Tu não deves fazer mal a ele,” advertiu seu companheiro.

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016