quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Quem Procura Encontra









Quem Procura Encontra  

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

Sinopse de Fatos Transcorridos: Por influência de uma infância carente e solitária ao lado só de gigantes da natureza, considerados invisíveis para muitos, decidido a servir o Altíssimo na vida, peregrinava o jovem Miang, tendo aprendido com seu primeiro mestre, indo depois morar junto de Fong, que era o segundo, o qual após algumas vivências desagradáveis ensinando-lhe a realidade da vida: revelou-se um príncipe, cujo reino requeria sua presença, tendo desta vez um motivo inadiável para se afastar de seu aluno, deveras inseguro...

Miang caiu numa introspecção tão profunda que nem se deu conta que estava novamente sozinho. A alvorada já se aproximava e ele continuava refletindo absorto. Inconscientemente prosseguira, encontrando-se repentinamente junto ao pequeno riacho, onde sabia que estava Hila, a ondina. Perpassou-lhe o pensamento – deveria chamá-la?
Antes mesmo de chegar a uma decisão, repartiram-se as ondas e o rosto travesso de Hila apareceu.
“Como é, servo do Altíssimo, encontraste o teu erro?”
 “Sim” exclamou Miang alegremente. Um peso enorme lhe foi tirado do coração.
“Eu o vejo,” confirmou Hila, “e fico feliz com isso.”
Ela acenou para ele e, antes que ele conseguisse responder algo, havia desaparecido. Agora, porém, Miang não mais se deteve ali. Voltou rapidamente, rogando em silêncio que lhe fosse mostrado o que tinha que fazer. Ainda não havia alcançado a sua tenda, quando encontrou um mensageiro, que alegremente exclamou:
“Que bom, que te encontro! Trago-te uma mensagem do príncipe Fong. Aqui está ela.”
Postou-se com as pernas abertas diante de Miang e repetiu devagar e claramente as palavras, como Fong o tinha encarregado.
“Diga ao meu filho Miang, que não continue inativo em sua tenda. Ele deve ir e procurar aquele trabalho que está destinado a ele. Quem procura seriamente, esse encontra.”
“Entendeste a mensagem, jovem?” perguntou o mensageiro, e Miang acenou afirmativamente. “Então está bem.”
Sem mais uma palavra, o mensageiro deu as costas e prosseguiu seu caminho. Miang, porém, não sabia bem o que fazer. Onde deveria procurar o seu trabalho? Ele estava disposto, mas não sabia onde devia começar. Entretanto, o que havia aprendido esta noite? “Deixar-se conduzir, nada querer sozinho.” Assim ele queria agir.

 Silenciosamente rogou ao Altíssimo:
“Altíssimo, permita que reconheça o que devo fazer!”
Então, continuou caminhando devagar. Diante de si estava o amplo vale, no qual a tribo amarela armara as suas tendas. O sol agora já havia nascido e viva atividade via-se ao redor das tendas. As mulheres assavam pão sobre pedras aquecidas. Crianças as rodeavam e se deliciavam com o aroma que dali emanava. Muitos dos homens haviam partido, porém, ainda havia número suficiente. Eles tratavam dos cavalos, e mais distante, nas verdes encostas, via-se rebanhos de ovelhas com seus pastores.
Miang ponderava, indeciso, para onde deveria dirigir seus passos, quando uma menininha correu ao seu encontro. Estava tão apressada, que esbarrou nele e ele a amparou em seus braços.
“Para onde vais com tanta pressa, pequena menina?” perguntou Miang rindo.
Séria, a pequena respondeu, tirando os seus densos cabelos escuros do rosto: “Devo buscar ajuda, meu pai está doente. Sente dores, queixa-se e geme.”
“A quem querias pedir ajuda, pequena?” perguntou Miang.
“Husa, a anciã, ela possui ervas curativas. Mas agora deixa-me ir embora.”
E a pequena soltou-se e correu rapidamente até a próxima tenda.
Miang a seguiu com o olhar. A criança era graciosa e muito séria para sua idade. Não demorou muito e ela retornou, seguida por uma anciã curvada, que levava uma sacola na mão. Essa devia ser Husa. Ficando curioso, Miang seguiu as duas até a tenda, não muito limpa, na qual o pai de A-na, assim chamava a menina, estava revirando-se no seu leito, gemendo.
Husa não perdeu muitas palavras. Ordenou A-na a esquentar água. Então preparou um chá, o qual o homem teve que engolir. Parecia, porém, que também esse chá medicinal lhe trazia pouco alívio.
Silenciosamente, Miang havia entrado na tenda atrás da anciã. O aspecto aqui não era bonito. Havia sujeira por todos os lados. Panos sujos estavam no chão, havia louça com restos de comida e o ar estava abafado e fumarento. Miang quis recuar arrepiado, mas uma voz dentro dele disse: “Fique!” Então, permaneceu bem quieto e observou como a anciã debruçou-se sobre o doente, dando-lhe para tomar o chá medicinal. Ele engolia, mas não parava de gemer. Entretanto, não foi possível determinar o que lhe faltava. À pergunta da anciã, onde sentia dores, ele respondeu queixoso: “Estão em todo meu corpo e me beliscam como os diabos de fogo.”
“Diabos de fogo?” perguntou Miang admirado e aproximou-se um pouco. “O que é isso?”
“Ora, são os pequenos diabos que vivem no fogo e que comem a madeira,” respondeu Husa calmamente. Para ela, isso não parecia ser algo fantástico. Miang, porém, admirou-se, ele não sabia o que era um “diabo”. Por isso continuou perguntando: “E o que são diabos?”
Medrosamente os dois outros olharam ao redor. “Quieto,” respondeu Husa e pôs o dedo sobre os lábios. “Isso não se deve falar em voz alta, senão eles vêm e podem nos prejudicar. Mas vou dizer-te no ouvido, para que possas resguardar-te, jovem forasteiro.”
E com voz rouca falou baixinho ao seu ouvido: “Diabos são entes maus, eles tentam destruir as pessoas.”
Miang admirou-se. Ele nunca encontrou tais entes.
“E eles vivem no fogo?” continuou perguntando incrédulo. “Não somente no fogo,” cochichou a anciã, “estão em toda parte, no ar, na água.”
“Pare!” exclamou Miang, “na água não vivem entes ruim, isso eu sei com certeza. Eu tenho visto a bela figura do ente que vive na vossa água! Ela é Hila, e ela quer bem a nós seres humanos.”

Agora, a vez de admirarem-se era de Husa e do doente, que com essa novidade quase esqueceu suas dores. Também A-na, que timidamente tinha ficado no fundo da tenda, deu um passo para diante. Miang, porém, feliz, sabia de repente: aqui havia o que fazer para ele.
“Posso sentar-me junto de vós?” perguntou amavelmente, e ambos pediram:
“Sim, senta-te junto de nós e conta-nos dos entes bons das águas.”
 Com todo prazer Miang começou a contar o que tinha vivenciado com Hila e Hima e como o ajudaram e o bem que lhe fizeram, pois serviam ao Altíssimo. Boquiabertos, Hisor, o pai de A-na, e Husa escutavam. Inacreditável era essa notícia e, no entanto, o forasteiro falava disso com tanta certeza. E quando descreveu como eram lindas e alegres as pequenas ninfas, estampava-se alegria nos rostos dos ouvintes.
“Sinto-me mais aliviado, desde que me contaste isso, forasteiro,” disse Hisor.
“Chamem-me Miang, este é o meu nome,” pediu o jovem. “Querem ouvir mais dos bons entes, que são servos do Altíssimo?”
Com grande alegria Hisor e Husa concordaram. E Miang contou dos enormes gigantes, de Uru e Muru e de sua fiel ajuda, como o conduziram até o príncipe Fong, e como são diligentes servindo ao Altíssimo.
O espanto dos ouvintes aumentava. Tudo era novo para eles, nunca haviam escutado algo igual. Hisor esqueceu-se de suas dores. Quando um raio oblíquo do sol entrou na tenda, Husa sobressaltou-se.
“Tenho que voltar para casa,” exclamou ela. “Mas tu voltarás, Miang?” pediu ela, “e continuarás nos narrando?”
Miang prometeu-o com alegria. Aqui, pois, havia encontrado o trabalho que devia executar. E o mesmo havia sido conduzido até ele, não tinha sido ele que o desejara.
“Eu voltarei amanhã, para ver como vai Hisor,” prometeu. E Husa acrescentou solicitamente: “E eu trarei novas ervas ainda melhores.”
Pois ela queria estar presente quando Miang contasse.
Já cedo no outro dia, Miang pôs-se a caminho. Mal podia esperar para continuar o seu trabalho. Hoje o enfermo estava deitado bem quieto no seu leito. Parecia que estava melhor.
“Como te sentes hoje, Hisor?” perguntou Miang amavelmente. E Hisor ergueu-se o melhor que pôde e disse-lhe contente:
“Então vieste mesmo, Miang? Como estou contente. Eu receava que te fosses incômodo visitar-me. Não é bonito aqui,” acrescentou lamentando. “Minha mulher morreu, e A-na ainda é muito pequena para deixar tudo em ordem.”
Sim, isto dava para perceber. Timidamente A-na olhava do canto do fogão para Miang. Ela se envergonhava e pretendia esforçar-se pondo ordem na tenda, pois ela também queria muito que o forasteiro viesse e contasse.
“Como é, os diabos do fogo não te beliscaram mais?” perguntou Miang e riu alegremente.
Este riso espantou o último resto de medo na alma de Hisor, de que talvez ainda um diabo pudesse estar na proximidade para prejudicá-lo. Respirou como que aliviado e juntou seu riso ao de Miang. Como isso fazia bem! Ele sentiu como estava melhorando novamente.
“Quando estás comigo, Miang, então não me sinto com medo,” disse ele admirado e olhou para o jovem. Qual seria o motivo disso? Escutaram passos lá fora e apressadamente entrou Husa, novamente com uma sacola na mão.
“Já estás aqui, Miang?” exclamou contente. “Então quero preparar rapidamente o chá de ervas, para que passem as dores de Hisor, e depois tu continuas contando, não é?”
E assim aconteceu, e resposta seguia à pergunta e nova pergunta seguia à resposta. Miang não sabia o quanto havia para contar dos gigantes e dos homenzinhos das pedras, de Hila e Hima. O tempo passou voando.
“Agora deve ser preparada a comida,” disse Husa e, ainda cheia de felicidade sobre o recém ouvido, tratou de ajudar A-na, que se esforçava a acender um fogo, no simples local de fogo aberto.

Miang ficou observando, perdido em pensamentos. Como ele era rico, porque o Altíssimo havia aberto os seus olhos para poder ver os servos fiéis, e dessa riqueza ele agora queria dar aos seres humanos. Era isso que o Altíssimo agora exigia dele. Dessa forma ele podia ajudar, servir. Miang estremeceu: Servir? Tornou-se com isso também um servo do Altíssimo? Como uma corrente de fogo perpassou-lhe esse reconhecimento. Quase caiu de joelhos, pelo excesso de felicidade, para agradecer ao Altíssimo.
Soou então a clara voz de criança de A-na: “Vejam, os diabos do fogo!”
O fogo ardia resplandecente e, quando Miang olhou, ele também descobriu os pequenos entes saltitantes nas chamas. Assustada, A-na queria esconder-se atrás de Husa, porém, Miang pegou-lhe na mão e puxou a criança para a frente.
“Observe,” disse ele, “como são bonitos! E o que é belo não pode ser mau. Veja, eles ajudam o fogo para que queime nos aquece e nos prepara os alimentos! Vamos escutar, o que nos têm a dizer”.
 Como que paralisados, olhavam agora os quatro para as chamas, todos viam as figuras palpitantes dançando, mas já não sentiam mais medo delas. E a Miang parecia ouvir um fino tinir vítreo, sons delicados, que se juntaram para formar as seguintes palavras:
“Também nós servimos ao Altíssimo, nós estamos felizes que isso nos é permitido! Sirvais-No vós também!”
Longamente Miang escutava, até que o fogo se extinguiu, depois se dirigiu aos demais e contou o que tinha escutado. Surpresa tomou conta dos ouvintes. E Miang não se cansou em responder todas as perguntas, pois esta vivência causava-lhe também a maior alegria. Era-lhe permitido servir! Toda a aflição e todas as perguntas e procuras dentro de si haviam desaparecido; preenchia-lhe uma alegria que fez estremecer o seu íntimo.
Quando o sol novamente lembrou Husa de suas obrigações, Miang também queria despedir-se. Mas Hisor pediu: “Fique mais um pouco, Miang, eu também quero contar-te algo.”

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.

NARRATIVAS DESDE O INÍCIO PELO ÍNDICE (POR DATA) 

No próprio título encerram em síntese os acontecimentos anteriores:

O Menino e os Gigantes – 04/09/16
Os Gigantes Moram ao Lado – 16/09/16
Adeus aos Gigantes – 23/09/16
O Primeiro Mestre – 29/09/16
Pela Nova Busca... – 07/10/16
Servir o Altíssimo Como Serviçal – 13/10/16
Decisão nas Alturas – 20/10/16
A Graça Vinda do Trabalho – 26/10/16
No Momento certo se esclarece – 03/11/16
Surpresa e Renovação Imediata – 10/11/16
É Só Deixar-se Conduzir – 17/11/16




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

É Só Deixar-se Conduzir







É Só Deixar-se Conduzir  


por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

Sinopse de Fatos Transcorridos: Na decisão de servir o Altíssimo, guiado por gigantes da natureza, entes invisíveis para muitos na matéria grosseira, o jovem Miang, após aprender tudo pelo nível de seu primeiro mestre, encontrou Fong, como segunda etapa de ensino, agora com lições mais duras numa situação de vida que parecia monótona demais, até descobrir que seu mestre era o príncipe de um imenso reino, carente no momento de sua presença e direção, para o qual resolveu voltar...

De todos os lados homens aproximavam-se, cada um tinha deixado os seus afazeres para ouvir o que o príncipe desejava:

“O príncipe Fong comunica a vós, ó homens, que é necessário combater os animais predadores que parecem ter-se multiplicado enormemente, causando grande prejuízo aos nossos rebanhos.”
Um murmúrio surdo perpassava as fileiras dos ouvintes.” Apesar de os nossos pastores terem recebido a ajuda de uma escolta,” continuou o palestrante, “não lhes é possível defender-se das pilhagens noturnas. Mas o que ainda é pior, nos chegam notícias de assaltos aos assentamentos em direção ao nascer do sol, contra os quais as mulheres e crianças são impotentes.” O murmúrio intensificou-se, exclamações indignadas fizeram-se ouvir, algumas mãos se ergueram.
“Deve ser prestado auxílio imediato e uma expedição guerreira deve ser empreendida contra os bandidos”
Subitamente levantaram-se as cabeças dos homens, seus membros se aprumaram: uma expedição guerreira, isto era uma notícia bem-vinda!
“O príncipe Fong manda convocar-vos, ó homens. Não deveis acompanhá-lo obrigados, isso deve acontecer voluntariamente. Também não devem participar desse grupo os anciãos e nem os jovens, pois será um empreendimento sério que exige valentia. Devem ficar também aqueles cujo cargo assim o exige. Voltem para casa e decidam quem quer atender ao chamado. Voltem aqui hoje antes do anoitecer.”
O anunciante deixou a plataforma e foi imediatamente circundado pela multidão excitada. Cada um parecia ter perguntas: “Em que direção seguiria o grupo, se o príncipe os acompanharia e quem deveria ser considerado jovem e muitas coisas mais. Inicialmente o homem deu respostas pacientemente, quando a afluência das pessoas aumentou, ele se desvencilhou.
“Miang, onde está Miang,” gritou ele por sobre as vozes agitadas. “O príncipe Fong chama-te. Eu te acompanho.” Rapidamente Miang dirigiu-se para perto dele. Juntos abriram caminho por entre a multidão que se debandava em vários grupos.
“Achas, Hang, que o príncipe irá levar-me junto”? perguntou excitado. O outro o olhou, detendo os passos por um momento, e levantou a mão, indeciso.
“Isto ninguém pode prever,” foi sua resposta.
“Se tu fosses um de nossos jovens eu não teria dúvida, mas contigo ele tem algo especial em mente. No entanto, receberás tua resposta imediatamente,” acrescentou Hang sorrindo, “lá adiante vejo o príncipe nos aguardando.”

 Em frente a uma grande bonita tenda estava Fong, a cujo aspecto totalmente modificado Miang teve que se acostumar sempre de novo. Não eram somente as suas pomposas vestimentas que tornaram a sua figura extremamente imponente, também não somente a expressão de seu semblante, mas pairava uma altivez sobre o seu antigo companheiro, que parecia excluir qualquer intimidade. Miang sentiu-se incapaz de aproximar-se de Fong da maneira habitual. Extintos pareciam os últimos dias de deliciosa amizade na selvagem região montanhosa. Também agora o jovem aproximou-se com profunda reverência ao que o aguardava e esperou que ele lhe dirigisse a palavra, mesmo que tudo dentro dele o impelia a falar e perguntar. Se tivesse levantado o olhar, deveria ter notado o olhar paternal de Fong sobre ele.
“Miang, mandei chamar-te,” assim iniciou, “porque tenho assuntos importantes para tratar contigo. Como foste informado, eu devo partir amanhã com os meus súditos contra os animais ferozes.”
Interrompendo-se involuntariamente, notou como o semblante de Miang cobriu-se com palidez mortal. “O que tens?” exclamou assustado.
“Meu pai também partiu e nunca mais voltou,” respondeu Miang impetuosamente.
“Isso não é motivo de supor que eu também não retorne,” sorriu Fong amavelmente. “Então ao menos me deixe acompanhar-te,” irrompeu do jovem.”Mas já percebo que queres dizer não. Falaste dos teus súditos. Eu sou o estranho que toleras com bondade, mas do qual tu não necessitas!”
Fong tentou em vão interromper as palavras que brotavam. Somente quando o exaltado parou para respirar, foi-lhe possível dizer com voz firme, amigável: “Estás num caminho errado, Miang, que te levará ao emaranhado de velhos erros. Eu havia te escolhido para guiar o povo na minha ausência. Porém, quem não é capaz de controlar-se a si mesmo, não pode guiar outros.”
Suspirando em silêncio, afastou-se e deixou Miang sozinho, uma presa dos mais conflitantes sentimentos. Decepção, vergonha, arrependimento clamavam no peito de Miang. Teve vontade de fugir para a solidão, sentiu-se, porém, preso a este local, do qual tinha que observar como Lung, um homem mais idoso, prudente, foi chamado pelo príncipe e provavelmente incumbido com a representação. Depois viu os preparativos para a caça e a dor de talvez perder Fong sobrepôs-se a todas as outras vozes.

E com esse medo na alma arrastou-se até a sua tenda e jogou-se sobre o seu leito de peles. Hora após hora passou, ele não o percebeu. Quando olhou ao redor, o breve crepúsculo já havia chegado e a lua quase cheia enviou a sua luz prateada por sobre a paisagem.
Agora a reunião certamente já havia começado. Miang assustou-se, entretanto, consolou-se com o fato de que o príncipe havia recusado a sua participação no grupo. Assim também era supérfluo nos preparativos. Mas a partida dele, queria e precisava ver!
Saiu de sua tenda e esgueirou-se até a tenda de seu antigo companheiro. Esperou por longo tempo, depois, ruídos confusos, vozes, o fungar dos cavalos indicaram o encerramento da reunião. Agora o príncipe deveria aparecer.
Miang queria tentar obter alguma tarefa para o período da ausência. Se pedisse humildemente, certamente Fong não recusaria. Mas o que foi isso? O ruído vindo do local de reunião afastava-se mais e mais. Não havia dúvida, o grupo tinha se formado e estava partindo a galope!
Aniquilado, Miang ficou parado ao lado da tenda, estremecendo de agitação interior. Fong havia partido, talvez para nunca mais voltar! Fong novamente o havia rejeitado! O que havia dito para o nobre zangar-se? Quando, desesperado, se fez essa pergunta, ouviu dentro de si o eco de suas próprias palavras tolas e a resposta severa, repreensiva, do príncipe entremeado à chamada de Hila, como canto de pássaros: “Procura teu erro!”
Envergonhado esgueirou-se novamente para sua tenda, jogou-se de joelhos diante de seu leito e implorou ao Altíssimo por clareza, para reconhecer seu erro e o seu caminho, por força para finalmente trilhar esse caminho!
Por longo tempo permaneceu absorto, nenhum ruído o atrapalhava, de modo que finalmente adormeceu. Pareceu-lhe, então, que viu um homem muito jovem num caminho solitário. Este caminho era estreito, mas de grande beleza em meio a uma paisagem selvagem com todo tipo de perigos iminentes. Às vezes a subida era íngreme, então o caminhante parava, como se tivesse dificuldade de respirar, porém, não olhou para trás. Somente agora Miang percebeu que os olhos do homem estavam fechados. Mas então era surpreendente que esse jovem conseguia caminhar de modo seguro. Ainda enquanto Miang considerava isso, viu o caminhante tropeçar, mas antes que esse pudesse cair, ele foi agarrado de cima por uma mão muito grande, luminosa, que o empurrou novamente sobre o caminho seguro. Isso se repetiu várias vezes. Quando a mão então novamente quis colocá-lo no caminho certo, o homem abanou a cabeça negativamente. Ele começou a apalpar as imediações e fez tentativas de trilhar um caminho diverso do indicado pela mão auxiliadora. Miang ficou impaciente.
“Deixa-te guiar, pois tu mesmo estás cego!” gritou para a figura do sonho. Este, porém, tinha se demorado muito tempo com a procura. Nisso havia perdido o caminho até então trilhado, tinha chegado a um declive úmido, coberto de musgo e escorregou irresistivelmente rumo ao precipício.

Miang acordou com um grito. O que aconteceu? Nitidamente ainda via o jovem resvalar e deslizar pelo caminho escorregadio em direção ao abismo. Ficou com medo. Subitamente sabia que era ele o jovem! O Altíssimo não o havia conduzido até agora, assim como ele o havia visto agora? Ele nunca soube para onde o seu caminho o conduziria, também não o sabia agora. Só uma coisa estava certa. O Altíssimo o mandava conduzir com mão firme. Ele só deveria deixar-se conduzir.
Era isso! Agora caiu-lhe a venda dos olhos. “Deixar-se conduzir,” isto ele tinha que aprender, isto era o mais importante, pois ele não conhecia o caminho até o Altíssimo! Mas como devia fazer isso, se deixar conduzir? “Não ter vontade própria,” murmurou uma voz dentro dele. Sim, o que foi que ele queria? O que não havia estado de acordo com a vontade do Altíssimo?
Então, novamente viu Fong diante de si, Fong, que até agora o havia instruído e conduzido a mando do Altíssimo. Sim, a mando do Altíssimo! Isto Miang havia esquecido. Ele mesmo queria decidir, interferir. E agora? Encontrava-se ele realmente já diante do abismo? Com perigo de precipitar-se?
Calor percorreu as suas veias. Nenhum passo deveria seguir nesse caminho, que o levava ao perigo máximo.
“Ó, Todo Poderoso,” irrompeu dele, “quero tornar-me Teu servo, ajuda-me para que não venha a desviar-me do caminho, que devo trilhar até junto a Ti!”
Não agüentava mais ficar dentro da tenda, correu para o ar livre.
A lua estava no alto do céu, mas a Miang parecia que algo o chamava e o puxava mais longe para a natureza. Era Hila, que o chamava?
Aqui fora estava claro que nem dia. A luz da lua pairava prateada sobre cada pedra, cada palhinha de grama. Em pensamentos profundos caminhava Miang meio inconsciente para diante. De repente, seu pé esbarrou numa pedra saliente. Ele tropeçou, quase caiu. Levantou o olhar fixado no chão. Então viu algo que até então nunca havia visto. Uma figura envolta em luz encontrava-se diante dele, sorriu para ele.
Estupefato Miang olhou para o milagre.
“Quem és tu?” balbuciaram seus lábios.
“Teu amigo,” veio cristalina a resposta.
“Meu amigo? Mas eu não te conheço!”
“Realmente não, Miang?” tinia novamente tão cristalino, tão amável até ele.

Então parecia como se um véu se rasgasse diante de seus olhos. Ele olhou nos olhos da figura e então lhe veio uma recordação, que ainda não conseguia compreender, captar.
“Não continua procurando por ora,” ordenou o desconhecido. “Escuta-me, Miang. Eu sou teu amigo, já lhe disse. O Altíssimo enviou-me para ajudar-te. Diga-me em que posso te ajudar.”
Fervorosamente irrompeu de Miang: “Ó, Todo Poderoso, eu Te agradeço! Maravilhosamente escutaste o meu rogo! Eu Te agradeço!”
Então se dirigiu ao estranho:
“Eu não sei mais o que devo fazer para me tornar um servo do Altíssimo, e mesmo assim sei que devo sê-lo!”
“Tu fazes demais!” disse ele, calando-se novamente.
Perplexo, Miang olhou para ele. Não deveria fazer mais nada? Mas Fong não teve que transportar pedras, a mando do Altíssimo, e, ele não teve que ajudá-lo nesse trabalho, por ordem do Altíssimo?
Parecia que o luminoso lia todos os pensamentos que perpassavam Miang.
“Trabalhar deves, deves movimentar tuas mãos. Muito trabalho te aguarda. Mas deves fazê-lo como servo, em obediência ao teu Senhor, não rebelar-te e querer saber melhor.
Ontem Fong quis confiar-te a condução de sua tribo. Tu, porém, só estavas cheio de medo de que Fong pudesse expor-se ao perigo e nele sucumbir. Procurou medrosamente retê-lo, e mesmo assim, era o seu dever de partir e livrar o seu povo da praga das feras. Não sabias tu que Fong é um servo do Altíssimo e somente atua conforme as Suas ordens? Considera, opuseste-te ao Altíssimo, não a Fong!”
Totalmente perplexo escutou Miang essas palavras. Agora a névoa em seu interior, que tudo tinha encoberto, se afastava. Sentia vergonha.

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.

NARRATIVAS DESDE O INÍCIO PELO ÍNDICE (POR DATA) 

No próprio título encerram em síntese os acontecimentos anteriores:

O Menino e os Gigantes – 04/09/16
Os Gigantes Moram ao Lado – 16/09/16
Adeus aos Gigantes – 23/09/16
O Primeiro Mestre – 29/09/16
Pela Nova Busca... – 07/10/16
Servir o Altíssimo Como Serviçal – 13/10/16
Decisão nas Alturas – 20/10/16
A Graça Vinda do Trabalho – 26/10/16
No Momento certo se esclarece – 03/11/16
Surpresa e Renovação Imediata – 10/11/16



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Surpresa e Renovação Imediata







Surpresa e Renovação Imediata  

por Charlotte Von Troeltsch e Susanne Schwartzkopf

Sinopse de Fatos Transcorridos: Por influência de gigantes da natureza, invisíveis para muitos na matéria grosseira, o jovem Miang, após aprender com seu primeiro mestre, vivia junto de Fong, que era o segundo, ensinando-lhe agora lições mais duras da vida, antes dele conseguir sua iniciação nos assuntos mais elevados, ligados ao saber do Altíssimo, cuja situação de vida parecia monótona demais, pela meta que pretendia alcançar...

Até esse ponto haviam chegado os seus pensamentos, quando ouviu vozes de homens. Fong tinha parado, para escutar...
Mas não lhe pareciam totalmente inesperados, somente curiosidade, sem surpresa desenhava-se no rosto do homem, enquanto Miang sentiu um forte impulso de esconder-se em algum lugar. As mãos de Fong o seguraram. Juntos olharam para os que estavam chegando.
Dois homens aproximavam-se, trazendo as suas robustas montarias nas rédeas devido à trilha estreita. Tinham aspecto bem diferente das pessoas que Miang havia visto antigamente e as quais, como ele, tinham seus corpos cobertos com peles. Estes dois usavam vestimentas coloridas, o que parecia ao jovem surpreso algo imensamente suntuoso, causando-lhe, entretanto, certo desconforto.
Quando avistaram os dois que aguardavam, conduziram seus animais para detrás de alguns grandes rochedos, acalmando-os com algumas palavras. Depois vieram ao encontro de Fong.
“És tu Fong, príncipe da tribo amarela?” perguntaram em dúvida, porém, com respeito.
“Eu me chamo Fong,” retrucou o interpelado com dignidade. “O príncipe deixei de lado, juntamente com as vestimentas.”
“Então, a despeito disso, és aquele que procuramos. A tua tribo necessita do príncipe. Lá não existe mais ninguém que nos pudesse guiar. Venha conosco. Mais lá embaixo aguardam as montarias, servos e vestimentas.”
Involuntariamente Fong abanou a cabeça. Com receio inexplicável Miang olhou para ele. O que ele faria? Era ele realmente um príncipe? Como ele iria decidir-se? Aí soou a voz de Fong, calma e firme.
“Não por capricho eu vim para esta solidão, mas para procurar o Altíssimo, para que também o meu povo aprenda a encontrá-Lo. Se chegou o momento de meu retorno, então quero acompanhá-los.”
Cortando as alegres exclamações dos homens, prosseguiu: “Fiquem aqui essa noite, ainda quero procurar perscrutar a vontade do Altíssimo e lhes darei uma resposta amanhã.”
Ele não havia dito: “Fiquem comigo.” Com espanto viu Miang, como os homens se curvaram, caminharam calados até seus animais e retornaram pelo caminho pelo qual chegaram. Somente quando estavam fora do alcance da vista, Fong falou com profundo suspiro: “Então também nós teremos que voltar para casa, Miang. A hora da decisão chegou para mim, mas também para ti. Antes de dormir, deixe-nos pedir ao Altíssimo para que abra meus olhos e ouvidos para perscrutar Suas ordens.”
Foi uma oração maravilhosa, que Fong enviou ao alto para o seu Senhor. Longo tempo Miang ainda teve que refletir sobre a mesma. Esta oração e toda a silenciosa atuação de seu companheiro ensinaram-no a compreender melhor o sentido do servir do que tudo o que até então vivenciara.

Quando acordou na manhã seguinte, diante dele estava Fong, vestido com vestimentas suntuosas. Ele parecia tão majestoso, que involuntariamente Miang curvou-se diante dele, como o tinha visto os homens fazerem.
“Levanta-te, Miang, chegou a hora em que eu, a mando do meu Altíssimo Senhor, devo retornar para junto de meu povo. Se quiseres, isso não precisa ser uma separação para nós. Me é permitido levar-te, se tu assim o desejares.”
Miang não conseguiu proferir palavra alguma. Suplicando estendeu as mãos.
“Eu separei uma vestimenta para ti, ela será suficiente até que possamos providenciar uma melhor. Por ora, a época das peles terminou.”
Com agrado olhou para o jovem que, sem pensar muito, vestiu as peças estranhas que o deixou diante dele numa beleza inconsciente, singular.
Uma curta oração, uma rápida refeição, depois Fong pediu ao seu companheiro que deixasse a tenda.
“Vamos ir ao encontro dos homens. Nossos passos para a vida lá embaixo devem ocorrer voluntariamente.”
Fong instruiu o jovem para colocar em ordem os seus poucos pertences e as peles. Não levaram nada consigo, mas tudo deveria estar aprovisionado da melhor forma possível.
Depois caminharam para a vastidão dourada pelos raios do sol e rapidamente encontraram a trilha que levava para baixo.
À beira de um riacho, que do alto emaranhado de montanhas precipitava-se por entre as planícies verde-aveludadas, caminhava um belo jovem. Pensativo, mantinha a cabeça abaixada, não dando atenção aos passarinhos e a outras pequenas figuras que aqui e acolá dele se aproximavam confiantes.

Parecia não chegar a uma conclusão sobre aquilo que ocupava sua alma. Suspirando, sentou-se num bloco de granito e não percebeu que a água respingava justamente nesse local, cobrindo-o de vez em quando com uma golfada de gotas aperoladas. Agora, porém, algumas alcançaram o seu rosto. Indiferente, as secou e olhou ao seu redor.
“Então fui novamente para perto da água,” murmurou baixinho. “Parece que algo me chama. Será que as irmãs de Hima têm uma mensagem para mim? Então vou chamá-las logo.”
Levantou-se e lançou sua voz por cima do estrondo.
“Vós, irmãs, ouçam-me. Saudações, trago para vós de Hima, a formosa.” Debruçou-se escutando. Parecia ter ouvido um riso límpido, mas o estrondo das águas o tragou. Em lugar nenhum conseguiu avistar uma figura. Chamou novamente as mesmas palavras, outra vez sem êxito.
“Por que elas não vem? Elas me escutam, isso eu sinto. Eu preciso delas.”
Tinha dito isso contrariado, então pensou: “Se eu necessito delas, devo chamar de maneira diferente. Elas têm razão em não atender a tão tolo chamado. Eu não pedi que viessem.”
Sorrindo, fez novamente soar sua voz: “Ó, irmãs de Hima, aqui está um homem solitário que deseja dialogar com vocês. Peço-lhes que apareçam!”
Novo riso mais forte, simultaneamente o jovem sentiu-se envolvido como que por leves véus. Diante dele, no chuviscar da água, estava uma figura que lhe parecia bem conhecida.
“Hima!” exclamou alegremente.
“Não Hima,” soou ao seu encontro. “Eu me chamo Hila. Tu chamaste pelas irmãs. Não sabes tu que em cada água só vive e reina uma de nós? Se quiseres ver mais, tens que caminhar adiante.”
Foi dito de modo extrovertido. O ser humano ali não conseguia responder nesse tom brincalhão. “Hila, eu estou solitário,” disse suplicante.
“Isto eu já ouvi uma vez,” riu a ente. “Agora que estou contigo, essa solidão terminou. Ela também não precisaria existir, se nos teus pensamentos cismadores não te tivesses absorvido tão inutilmente. Olha ao teu redor: tudo vive e está disposto a ajudar-te.”

Assim como Hima o tinha feito antes, Hila indicou com o braço estendido ao redor e os olhos de Miang pareciam abrir-se. Em toda parte viu os pequenos e pequeníssimos entes, o vale do riacho parecia estar repleto de atividade. Suspirando aliviado, sentou-se novamente na pedra grande, enquanto a ninfa escolheu um lugar envolto de água para descansar.
“Tu estás recaindo em erros antigos, Miang,” animou ela o ser humano, que procurava por palavras. Com isso, porém, ela não conseguia desencadear o fluxo de suas palavras, ao contrário: ele teve que refletir tão intensamente sobre o sentido de suas palavras, que esqueceu tudo ao seu redor.
“Erros antigos?” murmurou ele. “Erros antigos?”
Um som surdo, que parecia soar demoradamente de longe, o fez sobressaltar-se.
“O príncipe chama, adeus Hila, eu voltarei.”
“Procura o teu erro,” ecoou da água, mas Miang já tinha se afastado a passos largos.
Quando, seguindo o som, chegou ao local onde um homem, com toda sua força, fez soar os sons graves através de um enorme chifre de animal, encontrou-se em meio a intenso movimento. De todos os lados homens aproximavam-se, cada um tinha deixado os seus afazeres para ouvir o que o príncipe desejava. Após algum tempo todos pareciam estar presentes, pois o chifre silenciou, em seu lugar ouvia-se a voz de grande alcance de um homem, que subiu numa plataforma de pedras empilhadas.

(continua)

Trecho extraído do livro: Miang Fong, como relato sobre a vida do grande Portador da Verdade, que libertou o Tibete das trevas.

NARRATIVAS DESDE O INÍCIO PELO ÍNDICE (POR DATA) 

No próprio título encerram em síntese os acontecimentos anteriores:

O Menino e os Gigantes – 04/09/16
Os Gigantes Moram ao Lado – 16/09/16
Adeus aos Gigantes – 23/09/16
O Primeiro Mestre – 29/09/16
Pela Nova Busca... – 07/10/16
Servir o Altíssimo Como Serviçal – 13/10/16
Decisão nas Alturas – 20/10/16
A Graça Vinda do Trabalho – 26/10/16
No Momento certo se esclarece – 03/11/16